sábado, 6 de junho de 2009

Memórias de um soldado no Ultramar

António Carvalho Marques, o meu tio-avô materno, nasceu na pacata aldeia de Alcains, a 3 de Agosto de 1944. Foi recrutado para a Guerra do Ultramar, a 23 de Abril de 1966, tendo o seu contingente partido de Lisboa com destino ao Ultramar, no paquete Vera Cruz.
O meu tio prestou serviço militar, na colónia portuguesa de Moçambique, permanecendo lá vinte e sete meses.
O seu contingente era o Batalhão de Caçadores 1889, da Companhia 1553.
Em Moçambique, combateu em várias localidades, como Chico Novo, Luatise, Muembe, Tenente Valadim… entre outras. O armamento e o equipamento dos portugueses era inferiores ao dos guerrilheiros, pois estes, a nível de material bélico, eram apoiados pela URSS.
No início, matar alguém não fazia parte dos seus planos, mas, para sobreviver, teve que o fazer.
No mato, dormiam em cima de pedras ou no chão. Quanto à alimentação, levavam, rações de combate.
O meu tio António voltou para Portugal, em Agosto de 1968, são e salvo e com os vários amigos que fizera, no seu coração. O pesadelo da guerra tinha acabado… Mas o trauma pós-guerra ficou.




O meu tio na Guerra do Ultramar



Fábio Silva

A minha família em Angola

A história da minha família, em Angola, começa há 59 anos atrás, quando o meu bisavô, Manuel dos Santos Pio, decidiu emigrar para o Ultramar, à procura de melhores condições de vida.
O meu bisavô recebeu uma carta de chamada, à qual respondeu afirmativamente, e partiram, a 14 de Junho de 1950, rumo a uma colónia, onde tudo era desconhecido, Angola.
Chegaram ao porto de Moçâmedes. Era uma belíssima cidade, com marginais largas e bastantes palmeiras, edifícios altos e modernos, esplanadas cheias, …uma nova realidade se adivinhava.
Passadas algumas horas, partiram para Sá da Bandeira, onde o meu bisavô tinha o emprego garantido. O meu avô continuou a estudar. Mais tarde, os meus bisavós voltaram à metrópole, mas ele ficou.
Em 1962, o meu avô estava a fazer uma nova viagem e a cumprir um novo destino. Foi para Moçâmedes. Como era aventureiro e activo, começou a praticar desporto: futebol, hóquei e basquetebol no Atlético Clube de Moçâmedes. Mais tarde, foi treinador profissional de basquetebol feminino, no mesmo Clube e no Sporting Clube de Moçâmedes.
O ritmo de vida social era acelerado. Frequentava, assiduamente, bailes de gala, no Sporting Clube de Moçâmedes. Também ia a todos os bailes de Carnaval e desfilavam pela avenida principal.
O cinema também fazia parte dos seus divertimentos. Umas vezes ia ao Impala Cine, que tinha uma esplanada ao ar livre, outras vezes ao Cineteatro Avenida. Gostava muito de ir à praia das Miragens e à Esplanada do Café Avenida. Assistia a todos os ralis que se realizavam na Marginal e corridas de motas.
Em 18 de Junho de 1964, o meu avô resolveu vir visitar os pais à Metrópole, onde conheceu a minha avó e lhe pediu namoro. Nessa altura, correspondiam-se por cartas e, a 3 de Novembro de 1965, casaram-se por procuração.
Um mês depois, a minha avó embarcou no paquete “Uíge” e foi para Moçâmedes. A 19 de Abril de 1967, os meus avós tiveram o seu 1.º filho. A 12 de Janeiro de 1969, nasceu a minha mãe.
Ela frequentou o Colégio Nossa Senhora de Fátima, dirigido por religiosas.
A minha mãe lembra-se bem dos pastéis de nata que comiam na Pastelaria Oásis, da praia das Miragens. Esta praia era um “cartão de visitas” desta cidade. As suas águas eram calmas e tinha um areal muito extenso e branco. Fazia a delícia das crianças e dos adultos.
Era junto à praia que se realizavam as Festas do Mar, em Março, num recinto airoso onde funcionava a Feira Popular, com barracas de exposições, comes e bebes. Nessas festas, a minha mãe andava no comboio Bebé, havia cabeçudos e gigantones que desfilavam pelas principais avenidas, corridas de natação em mar, corridas de carros na marginal.
A minha mãe também se lembra dos gelados Tico Tico, de ver filmes ao ar livre, no Impala Cine, de ir às matinés do Cine Moçâmedes, de ir passear para as “Hortas”. Recordar é viver…e como tal a mãe também me contou que, nos jardins da avenida principal de Moçâmedes, existia um busto de Bernardino Freire de Figueiredo Abreu e Castro (fundador da cidade), o Palácio da Justiça (tribunal) e uma fonte luminosa ladeada por uma elegante gazela. No Parque Infantil Alina Marques de Campos, além dos baloiços, escorregas e outros divertimentos, existiam duas atracções, com as quais as crianças vibravam: a Chica (uma macaca) e o Kaitô (um elefante).
Saíram da sua terra, Moçâmedes, em 1975. Uma nova vida ia recomeçar…




















O avô com a minha mãe e o meu padrinho


Fábio Silva

A Salto

É aqui que começa a história do meu avô paterno, Manuel dos Santos Lopes da Silva. Tal como muitos portugueses, o meu avô emigrou, nos anos 60, para França. Em Março de 1964, decidiu ir a salto, pagando, segundo a minha avó, 30 contos ao passador (guia), homem que ajudava, a troco de uma remuneração, os outros a passar a fronteira. A minha avó lembra-se que ele dizia que os que iam a “salto” eram os “índios”, porque tentavam emigrar, de uma forma clandestina.
O meu avô e mais alguns amigos foram de táxi com o senhor António Ramalho, até à fronteira de Vila Formoso. Aí, fizeram o pagamento a um guia espanhol que os esperava e foram a pé, pela calada da noite, correndo riscos não só materiais como físicos.
O grupo tinha de 20 homens e 1 mulher, que acompanhava o marido. Em Espanha, estiveram 3 dias fechados num palheiro, onde não podiam fazer barulho e a alimentação escasseava.
Finalmente, chegaram à fronteira de França. Já nos Pirenéus, permaneceram 8 dias num casebre, cheio de pulgas. Em França, trabalhou na construção civil. Durante 25 anos, percorreu várias cidades e vilas de França (Paris, Chambery, Grenoble, Remis, Lyon, Alpes Doesse, Deux Alpes…).



















O meu avô na construção civil



Fábio Silva